Carl Gustav Jung - Biografia
Trabalho dos Acadêmicos de Psicologia do campus Univag - 2015/1
quarta-feira, 21 de maio de 2025
terça-feira, 21 de maio de 2024
Infância e Juventude
Carl Gustav Jung nasceu no dia 26 de julho de 1875 no lago de Constança, em Kesswil, Suíça. Jung tinha uma irmã e era o filho mais velho. Filho de Johann Paul Achilles Jung e Emilie Preiswerk . Seu pai, Paul Achilles Jung, era um homem trabalhador e dedicado à família e também pastor luterano da Igreja Suíça Reformada. Sua mãe, Emilie Preiswerk, sofria de distúrbios emocionais e tinha humor bastante instável sendo, inclusive, internada no Hospital de Friedmatt, para doentes mentais, na Basiléia em 1878, mesmo ano em que os pais de Jung tiveram uma separação temporária.
Entre 3 e 4 anos, sonhou com uma imagem fálica aterrorizante, em cima de um trono, num quarto subterrâneo. O sonho assediou Jung durante anos. Só muito tempo mais tarde ele descobriu que a imagem era um falso ritual; representava um ‘’Deus subterrâneo’’, mais amedrontador, porém mais real poderoso para Jung que Jesus e a igreja.
Ah segunda experiência ocorreu quando Jung tinha 12 anos. Ele saiu da escola, ao meio-dia, e viu o sol cintilando no telhado da catedral. Refletiu sobre a beleza do mundo, o esplendor da igreja e a majestade de Deus sentado, no alto do firmamento, num trono de ouro. Jung ficou então, de súbito aterrorizado com a direção de seus pensamentos e recusou-se a continuar a pensar nesta linha, que ele sentia como altamente sacrílega. Tentou, por vários dias, suprimir o pensamento proibido. Afinal Jung permitiu a si mesmo completa-lo: ele viu a bonita catedral e Deus sentado em seu trono, lá no alto, sobre o mundo, e por baixo do trono saiu um enorme excremento que caiu sobre o teto da catedral, despedaçou-a e quebrou suas paredes.
De alguma forma pode ser difícil para nós, hoje, imaginar o aterrorizante poder da visão de Jung. Dados o convencional pietismo e a falta de sofisticação psicológica em 1887, tais pensamentos eram somente inconfessáveis, como também impensáveis. Entretanto, seguindo sua visão, Jung sentiu, ao invés da danação esperada, um enorme alívio e um estado de graça. Interpretou sua experiência como uma prova enviada por Deus para mostra-lhe que cumpriu seu desejo pode fazer com que a pessoa vá a igreja e contra as mais sagradas tradições. Daí em diante, Jung sentiu-se distanciar da devoção convencional de seu pai e de seus parentes religiosos. Ele viu como a maioria das pessoas se afasta de uma experiência religiosa direta, permanecendo limitada pela letra de convenção da Igreja ao invés de considerar seriamente o espírito de Deus como uma realidade viva.
Em parte como resultado de suas experiências interiores, Jung sentiu-se isolado das pessoas. Ás vezes, ele se sentia intoleravelmente sozinho. A escola o aborrecia; entretanto, ele desenvolveu uma paixão pela leitura, ‘’uma ânsia absoluta de ler qualquer recorte de material impresso que caísse em minhas mãos’’(Jung, 1961). Na época de entrar na universidade, Jung resolveu estudar medicina mantendo um compromisso entre seus interesses por ciências naturais e humanas. Foi atraído pela psiquiatria como o estudo dos ‘’distúrbios da personalidade’’ (embora naquele tempo a psiquiatria fosse relativamente pouco desenvolvida e indiferenciada); percebeu que a psiquiatria envolvia ambas as perspectivas científica e humana. Jung também desenvolveu um interesse pelos fenômenos psíquicos e investigaram as mensagens percebidas por um médium local, para sua tese sobre ‘’Psicologia e Patologia dos Assim Chamados Fenômenos Ocultos’’.
domingo, 21 de maio de 2023
Jung e Freud - Relação
O primeiro encontro entre Jung e Freud aconteceu na casa de Freud, em Viena, em fevereiro de 1907. Para usar um termo caro à psicanálise, foi sintomática, a impressão que Jung registrou dele em suas memórias: "as primeiras impressões que tive de Freud permaneceram vagas e, em parte, incompreendidas".
Mas essa é a conclusão de um parágrafo que Jung começa na direção oposta: "Conversamos a partir de uma hora da tarde, quase ininterruptamente, durante treze horas. Freud era a primeira personalidade verdadeiramente importante com quem me relacionava. Ninguém, entre as pessoas que eu conhecia, podia ser comparada a ele. Em sua atitude, nada havia de trivial. Eu o achei extremamente inteligente, penetrante, notável sob todos os pontos de vista."
Quando se encontrou com Jung, Freud estava iniciando um processo de reconhecimento internacional, especialmente nos Estados Unidos, onde fora levado por Havelock Ellis. A psicanálise ainda sofria forte resistência, mas já transbordava do seu confinamento inicial e para Freud, Jung era uma das provas disso.
Jung quebrou "a primeira lança" por Freud num congresso em Munique onde Freud "foi propositadamente omitido, a respeito das neuroses obsessivas". Logo em seguida, em 1906, escreveu um artigo numa revista médica sobre a doutrina freudiana das neuroses e acabou advertido por dois colegas de que não teria futuro universitário que mantivesse aquele rumo. Jung continuou a defesa de Freud, com a "única diferença que, apoiado em minhas próprias experiências, não podia concordar que todas as neuroses fossem causadas por recalques ou traumas sexuais. Essa hipótese era válida em certos casos, mas não em outros."
Três anos depois do primeiro encontro, em 1910, ainda em Viena, Freud repetiu a Jung o pedido de não abandonar a teoria sexual. Para Freud era preciso fazer dela "um dogma, um baluarte inabalável". Jung sentiu-se chocado com a proposta: "ele me pediu isso cheio de ardor, como um pai que pede aos filhos que vá à Igreja todos os domingos." Esse acontecimento, segundo Jung, "feriu o cerne de nossa amizade."
Karl Abraham, que havia trabalhado sob a supervisão de Jung, segundo registra Jones, "já se mostrara intrigado com o que chamava de tendência para o ocultismo, a astrologia e o misticismo observados em Zurique, mas sua crença não provocou qualquer impacto em Freud, que começava a depositar grandes esperanças em Jung."
Mas a dissenção tomava forma. Jung escreve em suas memórias que "em função da unilateralidade de Freud, nada havia a fazer. Talvez só uma experiência interior, de cunho pessoal, teria podido abrir-lhe os olhos. E mesmo assim seu intelecto talvez o reconduzisse à simples 'sexualidade', ou 'psicosexualidade'. Ele tornou-se vítima do único lado que podia identificar, e é por isso que o considero uma figura trágica, pois era um grande homem e, o que é principal, tinha o fogo sagrado."
Em fins de 1910, Freud e Jung encontraram-se em Munique. Freud diz que o encontro lhe fez bem: "abri-lhe meu coração sobre a questão com Adler, das minhas próprias dificuldades e da minha dificuldade em lidar com o problema da telepatia... Estou mais convencido do que nunca de que ele é o homem do futuro”.
Ao menos no sentido que quis dar às suas palavras, Freud se equivocava. Jung partiria em breve. Quanto à telepatia, o assunto aparece em dois de seus escritos: O Sonho e a Telepatia e Psicanálise e Telepatia. No primeiro caso, Freud encerra dizendo: "por ventura, terei despertado a impressão de que quero tomar partido a favor do caráter real da telepatia no sentido ocultista? Lamentaria muito. Na realidade, quis ser completamente imparcial. Pelo que me toca, não poderia ser outra a minha atitude, pois não tenho direito de emitir juízo, já que nada sei a esse respeito”.
No ano anterior, no encontro em Viena, Jung havia procurado saber de Freud sua opinião sobre precognição e parapsicologia em geral. No relato que deixou sobre isso diz, referindo-se a Freud, que "fiel a seu preconceito materialista, repeliu todo esse complexo de questões, considerando-as mera tolice. Ele apelava para um positivismo de tal modo artificial que precisei conter uma resposta cáustica. Alguns anos se passaram antes que Freud reconhecesse a seriedade da parapsicologia e o caráter de dado real dos fenômenos ocultos”.
A ruptura final aproximou-se no melhor estilo freudiano: num sonho. Jung conta que sonhou com uma casa desconhecida, de dois andares, que sentia como sua. Na andar superior, entre móveis rococós, as paredes tinham quadros valiosos. No andar inferior, tudo era antigo, dos séculos 15 ou 16. A exploração de uma porta aberta levou-o a uma escada que conduzia a adega e aí, uma argola abriu uma passagem para uma gruta baixa e rochosa, empoeirada, onde dois crânios antigos se decompunham.
Freud, na avaliação de Jung, fez uma interpretação envolvendo desejos secretos de morte. Mas ele próprio enxergou outros conteúdos que o levaram, pela primeira vez, à noção de inconsciente coletivo.
Jung entendeu a casa do sonho como "uma espécie de imagem da psique". A consciência "era caracterizada pela sala de estar e parecia habitável, apesar do estilo antiquado." No andar térreo já começava o inconsciente: "quanto mais eu descia em profundidade, mais as coisas se tornavam estranhas e obscuras. Na gruta, descobri restos de uma civilização primitiva, isto é, o mundo do homem primitivo em mim; esse mundo não podia ser atingido pela consciência. A alma primitiva do homem confina com a vida da alma animal, da mesma forma que as grutas dos tempos primitivos foram frequentemente habitadas por animais, antes que os homens se apoderassem delas”.
Em 1911, Jung confessa que, num certo sentido, Freud "havia perdido sua autoridade sobre mim." Quando estava concluindo a redação de Metamorfoses e Símbolos da Libido, sabia que o capítulo O Sacrifício lhe custaria, em definitivo, a amizade de Freud. Jung expõe aí sua própria concepção do incesto onde, na maior parte dos casos, "representa um conteúdo altamente religioso e por esse motivo desempenha um papel decisivo em quase todas as cosmogonias e em inúmeros mitos. Mas Freud, atendo-se ao sentido literal do termo, não podia compreender o significado psíquico do incesto como símbolo e eu sabia que ele jamais o aceitaria."
Em 1910, e ainda mais em 1911, Jones registra que "Freud sentia-se conturbado ao saber que a intensa absorção de Jung em suas pesquisas mitológicas estava interferindo gravemente nos deveres de presidência (da Sociedade Psicanalítica Internacional) que havia atribuído a ele"
Quando a ruptura definitiva aconteceu, em abril de 1914, Jung sentiu-se desamparado: "todos os meus amigos e conhecidos se afastaram de mim. Meu livro não foi considerado uma obra séria. Passei por místico e, dessa forma, encerraram o assunto".
Freud se deu conta disso e numa carta que escreveu a Jones disse: Pode ser que superestimamos Jung e as suas realizações no futuro. “Não se encontra ele numa situação simpática perante o público, no momento em que se volta contra mim, isto é, contra o seu passado.”
Jung escreveu outras palavras. Avaliou que "olhando para trás, posso dizer que sou o único que prosseguiu o estudo dos dois problemas que mais interessaram a Freud: o dos 'resíduos arcaicos' e da sexualidade. Espalhou-se o erro de que não vejo valor na sexualidade. Muito pelo contrário, ela desempenha um grande papel em minha psicologia, principalmente como expressão fundamental, mas não única, da totalidade psíquica. Minha preocupação essencial era aprofundar a sexualidade além do seu limite pessoal e seu alcance de função biológica, explicando-lhe o lado espiritual e o sentido numinoso. Exprimia, assim, o que fascinara Freud, sem que ele o compreendesse”.
sábado, 21 de maio de 2022
Piscologia Analítica
Para abordar esse tema, é preciso primeiro conhecer alguns dos principais tópicos da teoria de Carl Gustav Jung e também um pouco de sua trajetória. Jung atuava na psiquiatria quando conheceu o trabalho de Freud que, na época, já se coadunava com seu pensamento e passou a contribuir muito para o atendimento de seus pacientes.
Assim começou a união entre esses dois pensadores, o que colaborou muito para o crescimento pessoal e profissional de ambos, possibilitando o surgimento e desenvolvimento de duas grandes teorias da psicologia, um legado muito valioso nos consultórios, entre outras áreas, até os dias de hoje.
Duas teorias foram citadas porque eles não permaneceram unidos por muito tempo. Isso porque após divergências em seus pensamentos, foi necessário que cada um seguisse e desenvolvesse seu próprio caminho. Dessa maneira, Freud continuou enriquecendo sua psicanálise e Jung criou sua psicologia analítica, estudando em paralelo temas como mitologia, cultura e literatura, religião e alquimia e os utilizando em sua teoria, interessado em saber os efeitos psíquicos desses temas nos homens e em fazer analogia com o funcionamento da psique. Hoje elas são consideradas duas abordagens diferentes dentro da psicologia, mas é importante saber que a psicologia analítica possui muitos fundamentos da psicanálise, pois tem esta em sua base. A análise junguiana está então, dentro da corrente psicanalítica, porque trabalha com o inconsciente.
Ambas consideram de suma importância para o trabalho analítico a análise do inconsciente (inclusive no trabalho com sonhos) e utilizam o discurso verbal como ferramenta. Porém, a psicanálise faz uso da associação livre, que consiste em deixar o paciente falar livremente o que lhe vem à cabeça, para que tudo seja objeto de análise.
E a postura do analista seria a de um observador e ouvinte que analisa tudo que o paciente traz, colocando-se atrás do mesmo para não interferir em seu processo e deixá-lo o mais a vontade possível. Pelo menos foi essa a postura que Freud passou na época, com o uso do divã.
Na psicologia analítica o psicólogo deixa o paciente livremente, mas não tanto assim, fazendo intervenções quando necessário e conduzindo ou orientando o discurso, não de maneira a influenciar, mas de modo a manter o indivíduo em seu discurso, não permitindo que ele perca o foco e vá para caminhos que, muitas vezes, podem ser distrações a serviço da resistência e de mecanismos de defesa. A postura do analista nesse caso já é diferente, pois ele se coloca como uma outra personalidade a frente do paciente, mostrando-se como uma outra pessoa passando pelos mesmos processos que o outro, apenas mais analisado e treinado para que possa ajudá-lo. Com isso, Jung defendia que a personalidade do analista está envolvida e também era um dos fatores que determinava aquela relação e aquele processo. Defendia ainda, que ambos estavam numa jornada, aprendendo, se descobrindo e se influenciando mutuamente, em busca de seus inconscientes.
Jung compartilhava com Freud a questão da transferência, porém, colocou uma diferença. Jung acrescentou que o analista deve ter conhecimento da transferência que está acontecendo ali, mas que não deve fazer uso dela. Deve, portanto, ter cuidado diante disso, pois o paciente fica muito frágil e suscetível diante do analista, assim como qualquer pessoa transferida por outra.
A psicologia analítica utiliza também outras ferramentas além do discurso verbal. Elas podem ser expressões artísticas de todos os tipos, como desenhos, pinturas e argila, por exemplo. Também a amplificação, que possibilita a associação de mitologia e contos de fadas ao discurso do paciente, seja ele o relato de um sonho, fantasia, ou até mesmo de alguma situação de vida. Há ainda a imaginação ativa, que já existia entre os alquimistas, e que consiste em uma interação com os conteúdos do inconsciente através de sua personificação. Ou seja, seria imaginar livremente (utilizando a intuição e o sentimento, e não a razão) tais conteúdos específicos em questão e também seu relacionamento com eles vivos. Outra técnica utilizada é a caixa de areia, onde o sujeito pode manusear a areia seca ou molhada e acrescentar miniaturas, criando cenários em um ambiente ao mesmo tempo livre e protegido, tanto pela relação terapêutica quanto pela própria caixa. Todas essas técnicas proporcionam o diálogo entre consciente e inconsciente, ativando o desenvolvimento da personalidade.
Dois fatores foram decisivos na cisão do relacionamento entre Jung e Freud, suas discordâncias a respeito da natureza do inconsciente e sobre a libido. Para Freud o inconsciente é visto como o repositório de memórias e pulsões negadas e/ou reprimidas da consciência desde o nascimento até a morte da pessoa, cujos conteúdos são oriundos principalmente da infância e lutam sempre para vir à consciência. Sua manifestação trazia à tona o que a censura permitia passar pelos mecanismos de defesa. Nos sonhos, as imagens oníricas vinham o mais disfarçadamente possível, para que pudesse passar pela censura, e possuíam o objetivo de realização de desejos reprimidos ou vinham simplesmente porque eventos da vida ou conflitos interiores surgiam incomodando a consciência, fazendo com que tais conteúdos se manifestassem através dos sonhos.
Jung partilhava dessa opinião, mas acrescentou que, além disso, o inconsciente possuía outro aspecto além do pessoal, que seria sua parte coletiva, onde estariam presentes os arquétipos, que são imagens primordiais herdadas por todos devido ao fato de tais situações terem se repetido tantas vezes nas psiques na história da humanidade. Para Jung as imagens dos sonhos e das fantasias não vêm daquela forma difícil de ser entendida porque a censura atua para que o sujeito não se depare com o material recalcado, mas sim porque é próprio do inconsciente se comunicar de forma simbólica (e o próprio conceito de símbolo diz que nunca poderemos esgotá-lo totalmente, ficando um aspecto seu sempre inconsciente), ou seja, não porque vem disfarçado, mas sim porque o inconsciente só sabe se manifestar dessa maneira, não possuindo uma linguagem mais semelhante a que temos na consciência. Por isso é importante saber as associações do paciente, pois se o inconsciente dele usou tais imagens, é importante ver a relação que ele tem com elas. O objetivo do inconsciente é passar uma mensagem, ser reconhecido e integrado, compensar a atitude da consciência e proporcionar maior plenitude ao homem, e só não faz isso de forma mais clara porque não possui as ferramentas necessárias, fazendo então à sua maneira, mas isso não significa que ele tenta dificultar disfarçando, para proteger a consciência.
Para Freud a libido era considerada uma energia psíquica que direciona o sujeito na busca de prazer e estava relacionada aos fenômenos psicossexuais, mudando de objeto à medida em que o homem ia amadurecendo, como nas fases de seu desenvolvimento (oral, anal e fálica), sempre buscando a maturação sexual, caracterizada por um forte Eu e a capacidade de retardar o desejo por recompensas. Jung defendia que a libido não tinha somente a natureza sexual, mas tinha um sentido mais amplo, se manifestando por qualquer necessidade do indivíduo, à medida e no momento que ela fossem surgindo, como a fome, a sede, a sexualidade, a intelectualização etc.
Freud acreditava que não era possível uma cura completa, mas que a análise poderia ajudar a pessoa a abrandar as dificuldades inerentes à condição humana e, principalmente, entender e transformar os traumas infantis, deixando de ficar presa a eles de forma neurótica, mas encarando-os de forma mais saudável, mudando para objetos e objetivos mais saudáveis. Para Jung o objetivo da análise era a individuação, um caminho que cada um percorre de forma única e individual na direção de sua unidade interna através de forças interiores que sempre objetivam levar os indivíduos ao centro de seu interior, o Self.
Conceitos Junguianos
Jung cresceu em uma casa que possuía uma enorme biblioteca, onde ele leu inúmeros assuntos diferentes e com isso foi um estudioso das mais diversas áreas, como as religiões orientais, a alquimia, a parapsicologia e a mitologia, entre outras. Dessa forma, sua análise sobre a natureza humana leva em consideração todos esses assuntos e isso faz com que ele desperte interesse e seja estudado por várias áreas além da psicologia.
Um dos principais conceitos de Jung e, pode-se dizer, o objetivo de todo homem para ele, é o daindividuação, que seria um processo de desenvolvimento pessoal que envolve o estabelecimento de uma conexão entre o ego, centro da consciência, e o Self, centro da psique total, o qual, por sua vez, inclui tanto a consciência como o inconsciente. Para Jung, existe interação constante entre a consciência e o inconsciente, e os dois não são sistemas separados, mas dois aspectos de um único sistema, por isso é tão importante manter a comunicação e o equilíbrio do eixo ego-Self. A psicologia junguiana está basicamente interessada no equilíbrio entre os processos conscientes e inconscientes e no aperfeiçoamento do intercâmbio dinâmico entre eles, lutando sempre contra a unilateralidade e buscando sempre o equilíbrio entre os pares de opostos, conscientizando-os e integrando-os à consciência através da comunicação do eixo ego-Self, mas sem cair na enantiodromia, que seria passar de um oposto a outro sem fazer as devidas transformações e sem encontrar o equilíbrio entre eles.
Em relação à consciência, Jung desenvolveu as atitudes de extroversão e introversão, e as funções psicológicas pensamento, sentimento, sensação e intuição, usando tais conceitos no que chamou de Tipos Psicológicos. Segundo ele todos possuímos ambas as atitudes e ambas as funções, apenas em diferentes proporções, o que faz com que uns sejam mais extrovertidos, outros mais introvertidos, uns possuam mais desenvolvidas uma função em detrimento de outras etc.
A extroversão é uma atitude objetiva e a introversão é uma atitude subjetiva. Essas duas atitudes se excluem mutuamente, pois não podem coexistir simultaneamente na consciência embora possam alternar, e realmente o façam, uma com a outra. Uma pessoa pode ser extrovertida em determinadas ocasiões e introvertida em outras. Entretanto geralmente predomina uma dessas duas atitudes num determinado indivíduo durante a sua existência.
A função pensamento discrimina, julga e classifica os fenômenos a partir da lógica da razão, buscando avaliar objetivamente os “prós” e “contras” da natureza desses fenômenos. Nomeia e conceitua os objetos. De uma forma sintética, a função pensamento exprime o que é um objeto. Estabelece a relação lógica e conceitual entre os fatos percebidos. A função sentimento faz a avaliação dos fenômenos a partir de uma dimensão valorativa – eles são agradáveis ou não. Tal como o pensamento, julga, porém, não pela lógica da razão, mas pela lógica de valores pessoais – que, por sua vez, recebe influências dos valores sociais. O conceito de sentimento não deve ser confundido com os conceitos de emoção e afeto. Os sentimentos estão associados a uma dimensão valorativa de julgamento, já a emoção é um afeto de grande intensidade de energia chegando a alterar funções orgânicas, tais como batimento cardíaco e ritmo respiratório alterados por afetos de amor, ódio, ciúme, entre outros. A função sensação privilegia as informações recebidas pelos órgãos dos sentidos, constatando a presença sensorial das coisas que nos cercam no contexto do “aqui e agora”.
Corresponde à soma total das percepções dos fatos externos que ocorrem através dos órgãos dos sentidos. Por fim, a função intuição vai além da percepção (sensação), buscando os significados, relações e possibilidades futuras das informações recebidas.
Trata-se de uma apreensão perceptiva dos fenômenos (pessoas, objetos e fatos) pela via inconsciente. A intuição “vê” a natureza “oculta” desses fenômenos. A função intuição está associada a um tipo de percepção que antevê possibilidades de acontecimentos. Corresponde aos pressentimentos, palpites e impressões.
Pensamento e Sentimento são funções racionais e Percepção e Intuição são funções irracionais. E as funções psíquicas formam dois pares de funções opostas, entretanto, complementares: o pensamento é oposto, porém, complementar ao sentimento. E a sensação é oposta, porém, complementar à intuição.
Jung também estruturou as funções em função principal, que é a mais desenvolvida pelo sujeito, é usada de forma consciente; função auxiliar, que é a segunda mais desenvolvida, também utilizada de forma consciente, auxilia a função principal; função terciária, que possui desenvolvimento rudimentar, age num plano mais inconsciente; e função inferior, que é a mais indiferenciada, menos desenvolvida ou infantil, permanecendo num plano quase que exclusivamente inconsciente.
Todos os seus outros conceitos têm mais relação com o inconsciente. Em relação à dinâmica da personalidade, pode-se entender que no início da vida o bebê está ainda numa fase indiferenciada da mãe. Por não ter desenvolvido ainda um Eu próprio, compreende que ele e mãe são uma única individualidade, estando, portanto, numa fase urobórica, onde não há limites ou fronteiras onde um começa e o outro termina. À medida que vai se desenvolvendo ele vai desenvolvendo as pulsões de vida e de morte, e aos poucos vai se diferenciando da figura materna, constituindo-se como um Eu diferenciado. Esse, porém, é apenas o início desse desenvolvimento e dessa diferenciação, pois durante a vida será necessário haver a diferenciação do ego também com o Self no processo de individuação.
Conforme a criança vai crescendo, os primeiros grupos sociais com quem convive são a família e a escola. Nesses ambientes ela percebe que recebe aprovação por algumas coisas que faz e reprovação por outras, experimentando bons sentimentos e recompensas nas primeiras, e ruins na segunda situação. Com isso ela aprende a fazer mais aquilo que recebe aprovação, pois precisa do amor e da aceitação desses primeiros grupos sociais, principalmente dos pais e professora, para que possa se desenvolver de maneira confiante e saudável. Dessa maneira ela começa a desenvolver o arquétipo da persona, que seriam os diferentes papeis sociais que as pessoas desenvolveriam para que pudessem conviver e se adaptar em sociedade. Isso é necessário para que se possa viver de forma saudável, desde que o indivíduo transite entre suas diferentes personas de maneira a não se apegar demais a apenas uma ou algumas, deixando outras esquecidas, o que o manteria numa atitude unilateral, causando um desequilíbrio em sua personalidade. Personas seriam então os papeis que ocupamos na sociedade.
Exemplos de persona seriam a de mãe, a de filho, a de sogra, a de irmão, a de policial, a de médico, a de professor, a de esposa etc. Saudável é quando o homem assume a persona de policial no trabalho, de pai e marido em casa, de filho na casa dos pais e assim por diante. Se ele assume, por exemplo a persona de policial em casa, terá problemas decorrentes disso, tanto em sua psicologia interna, devido à unilateralidade e desequilíbrio, quanto de relacionamento com os membros da família. Outro exemplo negativo seria se assumisse no trabalho e em casa sempre a persona de filho, o que poderia fazer com que sua esposa precisasse ser mãe dele ao invés de mulher; que seus filhos não o respeitassem tanto ou que ele disputasse coisas com eles; ou ainda que não fosse visto como um bom profissional no trabalho.
Em consequência do arquétipo da persona, outro arquétipo começa a se formar, o da sombra. Na sombra estariam contidos todos os aspectos que a criança reprimiu em si para que tivesse a aceitação que desejava, fazendo somente as coisas que saberia que receberia aprovação social. Além disso, a sombra também contém aspectos que a própria pessoa considera negativo, independente do social, ou ainda, aspectos que até ela mesma desconhece, por não ter consciência. Ela também pode conter aspectos positivos e desconhecidos do sujeito, que ele desconhece ou que não considera positivo. A sombra, portanto, é inconsciente e por isso costuma ser projetada no outro. Quanto maior e mais inconsciente é a sombra, mais a pessoa a projeta e mais fica em desequilíbrio, o que pode lhe causar muitos problemas, pois sua energia psíquica está toda represada nesse seu aspecto, ficando os outros carentes dessa energia, por isso é necessário que a pessoa se conscientize dela.
Para Jung, a criança é a extensão da psicologia de seus pais e está sujeita às influências deles, estando suas experiências posteriores e relacionamentos adultos, dependentes da forma como irão internalizar as figuras de seus pais e relacionamento deles e com eles. E quando se fala em internalizar tais figuras, não necessariamente se fala da figura real, mas também da imagem arquetípica de mãe e de pai. Segundo ele, ao nascer a criança tem sua consciência toda dentro do inconsciente, ou seja, ela é só inconsciente coletivo. Depois, vai aos poucos expandindo sua consciência, à medida que vai tendo experiências, e desenvolvendo seu inconsciente pessoal. Dessa forma o ego fica no centro da consciência, mas não sendo ele o todo, e sim apenas uma parte do todo que é o Self, centro da psique total.
Como já foi visto, o conceito de inconsciente para Jung pode ser dividido em dois, o pessoal e o coletivo. Independente de qual seja, Jung concebia que a linguagem do inconsciente seria por imagens, símbolos e fantasias, por isso seria difícil decifrá-lo, por ser um tipo de linguagem diferente (imagens) da utilizada pela consciência (palavras). Ele também trouxe a ideia de que o inconsciente possui função compensadora da consciência, ou seja, se o ego está muito focado em uma única direção, o inconsciente se manifestaria sempre numa direção oposta, com a intenção de mostrar outro ângulo à pessoa e também para buscar o equilíbrio do sistema psíquico.
O inconsciente pessoal para Jung se originava a partir do coletivo e, como Freud, também considerava que continha conteúdos mentais inacessíveis ao ego, reprimidos durante a vida e um lugar psíquico com seu caráter, suas leis e funções próprias. Acrescentou que também conteria conteúdos percebidos apenas de forma subliminar. E o inconsciente coletivo seria a parte do inconsciente que contém aspectos que nunca foram conscientes, os arquétipos, bases filogenéticas e instintivas da raça humana que foram herdadas pela psique devido às experiências repetidas que as pessoas foram tendo durante toda a história da humanidade. Nesse inconsciente estaria contido o inconsciente pessoal e seus conteúdos refletem processos arquetípicos. As manifestações do inconsciente coletivo aparecem como motivos universais, ou seja, se repetem independente da época ou cultura. Inclusive foi observando isso que Jung chegou à conclusão da existência desse inconsciente.
Exemplo disso foi o sonho que ele analisou de um paciente psicótico a respeito do falo do sol ser a origem dos ventos, e tempos depois ter encontrado a mesma referência num mito de uma antiga religião persa, tendo certeza de que não tinha como o paciente ter tido acesso a esse dado.
Através do método da livre associação, Jung identificou relações entre idéias que das quais os pacientes não podiam ter conhecimento prévio, nem por ter ouvido ou lido a respeito. Indo adiante em suas pesquisas, ele encontrou paralelos entre as tramas e os símbolos dos sonhos de todo tipo de pessoas: desde seus pacientes até prisioneiros nas cadeias americanas e indígenas no meio da África. Não somente, ele se deu conta que havia temas recorrentes na história da cultura humana, expressos tanto na mitologia como na literatura. A conclusão de Jung foi que o inconsciente não podia ser somente pessoal. Há um nível mais profundo que é coletivo, pertencente a todo indivíduo do planeta. (NOGUEIRA, 2010 Mai 13)
Jung falou também dos complexos, seriam grupos de ideias ou imagens carregadas emocionalmente, que possuem em seu núcleo um arquétipo correspondente. Dessa maneira, os arquétipos são os núcleos dos complexos, existindo um para cada situação da vida, de tal maneira que Jung chamou de arquétipo também o ego. Pelo fato dos complexos serem carregados de emoção, e estarem ligados a seu núcleo arquetípico por um vínculo energético, quando constelados ou ativados, são naturalmente acompanhados por um afeto. Por essa razão e pelo fato de serem sempre em parte ou totalmente inconscientes, acabam sendo relativamente autônomos, o que faz com que, quando constelados por alguma situação que tenha relação com eles, tenham o poder de tomar à frente do ego na consciência e agirem por si. Isso é possível porque a constelação faz com que ganhem uma quantidade grande de energia psíquica que ultrapassa a energia do ego, que só volta ao controle da consciência quando a energia do complexo em questão se esvazia, fazendo com que ele perca a força e volte ao inconsciente.
Quando totalmente inconsciente de seu complexo, o ego ao retornar ao controle, pode ficar surpreso e arrependido por ter agido de tal maneira, não entendendo o que o levou a fazer aquilo. Se a pessoa possui uma persona muito bondosa, provavelmente sua sombra é bem grande e, se nem ela e nem os outros a seu redor tiverem consciência disso, o susto pode ser bem grande quando o complexo da sombra, por exemplo, vem à tona em alguma situação. Por isso é tão importante conscientizar o máximo de conteúdos ou complexos possível, pois eles só assaltam a consciência quando são negados e reprimidos por ela, pois seu único objetivo é ser reconhecido pela mesma. Uma vez reconhecidos, conscientizados e trabalhados, o sujeito poderá perceber quando estiverem sendo constelados por alguma situação e, conscientemente, terão o poder de escolher quando e como usará seus aspectos. Isso é possível de ocorrer porque a energia psíquica do ego estará maior, uma vez que os conteúdos não estão mais tão arraigados ao inconsciente e também porque o ego mais consciente e trabalhado, estará mais fortificado.
A conscientização dos complexos e o trabalho decorrente disso, ocorrem através do diálogo entre os conteúdos do indivíduo, ou seja, não basta só tomar consciência dos aspectos de sua sombra, por exemplo, é necessário ir aos poucos integrando-os à consciência. Isso é um trabalho longo e paulatino, que deve ser feito por toda a vida e, de forma resumida, é nisso que consiste a individuação. Por isso ela nunca está terminada, pois sempre haverá conteúdos a serem reconhecidos e integrados.
Esse diálogo ou comunicação entre o ego e o Self ocorre através do eixo ego-Self, quando este está funcionando direito, sem interrupções, e é feita através de imagens, onde o ego aos poucos vai tendo acesso e se relacionando com o inconsciente. Se há uma interrupção nesse eixo, ego e Self não se comunicam direito e pode haver uma neurose, ficando a pessoa egoica demais e sem contato com seus conteúdos internos. Nesse caso é necessário o fortalecimento desse eixo e o aumento do relacionamento dessa pessoa com suas imagens e conteúdos inconscientes. Quando essa interrupção é grande demais, existe uma fenda entre ego e Self e pode ocorrer a psicose, que é quando o ego se desestrutura por completo e só o inconsciente passa a existir, estando o ego mergulhado em suas imagens. Nesse caso é necessário o fortalecimento do ego e o resgate dele das imagens do inconsciente, através do próprio relacionamento com elas.
Como foi visto, o ego também é considerado um arquétipo e é o centro da consciência, sendo o responsável por dirigir nossa vida consciente, nossas ações e escolhas, buscando sempre proteger a consciência de qualquer coisa que a ameace. Apesar das pessoas acharem que ele é tudo, que elas são ele, ele é apenas uma parte do sistema psíquico. A outra parte é o inconsciente e nele se encontra o Self, que realmente é a essência de cada um, sendo o objetivo de todos ir de encontro a esse verdadeiro centro e se tornar ele, ou seja, a individuação, como já foi dito.
O Self, portanto, é o arquétipo central, responsável pela ordem e totalidade da personalidade. É formado pelo consciente e pelo inconsciente juntos e é o centro da psique total. Geralmente é representado por símbolos que remetam a essa totalidade, como mandalas, círculos e imagens impessoais.
Há ainda os arquétipos da anima e do animus, que são responsáveis por auxiliar o ego a entrar em contato com o inconsciente, afim de aprofundar sua relação com o mesmo na busca e no caminho da individuação. Anima é a parte interior feminina da psique do homem e animus a parte interior masculina da psique da mulher, servindo então ao equilíbrio do sistema psíquico, uma vez que compensam a atitude masculina ou feminina da consciência.
A prática na clínica junguiana
A prática junguiana na clínica é psicanalítica porque trabalha com o inconsciente, e tem muitos pontos em comum com a psicanálise, afinal, Jung esteve junto com Freud por um tempo e compartilha de suas ideias. A diferença principal é que ele acrescentou coisas. Então, pode-se dizer que a prática clínica de Jung é bem semelhante à de Freud, apenas com algumas diferenças nos conceitos teóricos, principalmente na adição de alguns, como o do inconsciente coletivo, que foi adicionado ao conceito de inconsciente puramente pessoal de Freud.
Diante disso, é possível ver que a psicologia junguiana compartilha com a psicanálise a questão conceitual do recalque e do inconsciente, com a questão da formação dos sintomas; e a questão prática da forma de trabalhar, pois ambas estão interessadas em proporcionar o surgimento do discurso do inconsciente.
Como já mencionado, a diferença aparecerá na escuta desse inconsciente, pois não necessariamente ele trará conteúdos recalcados daquele paciente, mas sim a manifestação de conteúdos arquetípicos que nunca foram conscientes no sujeito, que nunca foram vividos por ele, mas foram trazidos pelo inconsciente coletivo por algum motivo, o que deve ser analisado com ele de acordo com seu momento atual. Jung defendia a ideia de uma psique autorreguladora, que está sempre buscando sua organização, mesmo em psiques em estados bem caóticos. Dessa forma, às vezes a maneira que encontra de proporcionar essa organização, é trazendo conteúdos mitológicos, por exemplo, em que sendo analisados e associados com a vida do paciente, uma transformação ou entendimento pode surgir daí.
É importante frisar que a manifestação do inconsciente (pessoal ou coletivo) e o trabalho do mesmo, não funciona apenas para resolver conflitos, mas acima de tudo, tem o objetivo de desenvolver todas as potencialidades daquele indivíduo, mobilizando a consciência e buscando o desenvolvimento como um todo, que seria o processo de individuação.
Outro tópico que é importante esclarecer, é o do uso das religiões, mitos, alquimia etc. Jung por muito tempo foi considerado místico e não levado a sério pela comunidade científica por estudar tais assuntos. Porém, ele nunca esteve interessado em obter respostas sobre eles, mas sim em analisar os efeitos de tais manifestações na psique do homem. Além disso, analogias entre a vida, sonhos e fantasias do paciente com mitos, contos de fadas, processos alquímicos ou relatos religiosos funcionam de forma a enriquecer a gama de associações e de experiências, proporcionando insights e autoconhecimento, e nunca devem ser vistos de forma literal.
Como já foi exposto, junguianos utilizam muitas técnicas expressivas para auxiliar o discurso e a manifestação do inconsciente. Além das já mencionadas, pode-se usar também expressões corporais como a dança, ou ainda os desenhos, modelagem, trabalho com o barro etc. Cada um escolhe aquela que preferir, mas todas possuem o mesmo objetivo: trabalhar o que é expresso, seja no discurso ou por sonhos, e buscar entender e interpretar, com a finalidade de proporcionar o conhecimento e a comunicação entre consciente e inconsciente.
De acordo com esse objetivo, fica claro que a abordagem junguiana não trabalha com a busca da cura, porque não acredita haver uma cura específica. Para a psicologia analítica, a “cura” seria encontrar a si mesmo, o grande si mesmo, e não o ego limitado e sempre parcial. O objetivo seria a pessoa se tornar aquilo que ela realmente é em essência, através de um trabalho de conscientização e aproximação de consciência e inconsciência pela vida toda, em movimentos circum-ambulatórios, indo e vindo e cada vez se aproximando mais. Ou seja, o objetivo da análise junguiana é a busca da individuação. Porém, sempre respeitando a capacidade do ego do paciente em lidar com seu inconsciente, e também a intenção do paciente, pois uns podem apenas querer resolver alguns sintomas ou questões específicas, outros permanecem após isso e entram em processo analítico.
Por fim, a abordagem junguiana não prioriza tanto o diagnóstico, pois o que mais importa é como ela vai lidar e se organizar diante daquilo, e qual o significado que aquilo tem para a pessoa.
sexta-feira, 21 de maio de 2021
Inconsciente Coletivo
Uma das teorias do inconsciente coletivo. Essa teoria foi adotada apenas por algumas escolas psicológicas. Segundo Jung, o inconsciente coletivo não deve sua existência a experiências pessoais; ele não é adquirido individualmente. Jung faz distinção: o inconsciente pessoal é representado pelos sentimentos e ideias reprimidas, desenvolvidas durante a vida de um individuo. O inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, ele é herdado. É um conjunto de sentimentos, pensamentos e lembranças compartilhadas por toda humanidade.
O inconsciente coletivo é um reservatório de imagens latentes, chamadas de arquétipos ou imagens primordiais, que cada pessoa herda de seus ancestrais. A pessoa não se lembra das imagens de forma consciente, porém, herda uma predisposição para reagir ao mundo da forma que seus ancestrais faziam. Sendo assim, a teoria estabelece que o ser humano nasça com muitas predisposições para reagir ao mundo da forma que seus ancestrais faziam. Sendo assim a teoria estabelece. Por exemplo, o medo de cobras pode ser transmitido através do inconsciente coletivo, criando uma pré-disposição para que a pessoa tema as cobras. No primeiro contato com uma cobra, a pessoa pode ficar aterrorizada, sem ter tido uma experiência pessoal que se causa tal medo, e assim derivando o pavor do consciente coletivo. Mas nem sempre as predisposições presentes no inconsciente coletivo se manifestam tão facilmente.
Os arquétipos presentes no inconsciente coletivo são universais e idênticos em todos os indivíduos. Estes se manifestam simbolicamente em religiões, mitos, contos de fadas e fantasias. Entre os principais arquétipos estão os conceitos do nascimento, morte, sol, lua fogo poder e mãe. Após o nascimento, essas imagens preconcebidas são desenvolvidas e moldadas conforme as experiências do individuo. Por exemplo: toda criança nasce com arquétipo da mãe, e a medida que as crianças presencia , vê e interage com a mãe, desenvolve-se então uma imagem definitiva.
Jung acreditava que na vida cada individuo tem uma tarefa uma realização pessoal, que o torna uma pessoa inteira ou solida. Essa tarefa é o alcance harmonia entre o consciente e o inconsciente.
Jung explorou outras áreas da psicologia, tais como o desenvolvimento da personalidade, identificação dos estágios da vida, as dinâmicas da personalidade, sonhos e símbolos, entre outras. Suas teorias tiveram um grande impacto sobre o campo da filosofia e são amplamente estudadas e praticadas até os dias de hoje.
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Teoria da Personalidade
Dentre todos os conceitos de Carl Gustav Jung, a idéia de introversão e extroversão são as mais usadas. Jung descobriu que cada indivíduo pode ser caracterizado como sendo primeiramente orientado para seu interior ou para o exterior, sendo que a energia dos introvertidos se dirige em direção a seu mundo interno, enquanto a energia do extrovertido é mais focalizada no mundo externo.
Entretanto, ninguém é totalmente introvertido ou extrovertido. Algumas vezes a introversão é mais apropriada, em outras ocasiões a extroversão é mais adequada mas, as duas atitudes se excluem mutuamente, de forma que não se pode manter ambas ao mesmo tempo. Também enfatizava que nenhuma das duas é melhor que a outra, citando que o mundo precisa dos dois tipos de pessoas. Darwin, por exemplo, era predominantemente extrovertido, enquanto Kant era introvertido por excelência.
O ideal para o ser humano é ser flexível, capaz de adotar qualquer dessas atitudes quando for apropriado, operar em equilíbrio entre as duas.
As Atitudes: Introversão e Extroversão
Os introvertidos concentram-se prioritariamente em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo à introspecção. O perigo para tais pessoas é imergir de forma demasiada em seu mundo interior, perdendo ou tornando tênue o contato com o ambiente externo. O cientista distraído, estereotipado, é um exemplo claro deste tipo de pessoa absorta em suas reflexões em notável prejuízo do pragmatismo necessário à adaptação.
Os extrovertidos, por sua vez, se envolvem com o mundo externo das pessoas e das coisas. Eles tendem a ser mais sociais e mais conscientes do que acontece à sua volta. Necessitam se proteger para não serem dominados pelas exterioridades e, ao contrário dos introvertidos, se alienarem de seus próprios processos internos. Algumas vezes esses indivíduos são tão orientados para os outros que podem acabar se apoiando quase exclusivamente nas idéias alheias, ao invés de desenvolverem suas próprias opiniões.
As Funções Psíquicas
Jung identificou quatro funções psicológicas que chamou de fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. E cada uma dessas funções pode ser experienciada tanto de maneira introvertida quanto extrovertida.
O Pensamento
Jung via o pensamento e o sentimento como maneiras alternativas de elaborar julgamentos e tomar decisões. O Pensamento, por sua vez, está relacionado com a verdade, com julgamentos derivados de critérios impessoais, lógicos e objetivos. As pessoas nas quais predomina a função do Pensamento são chamadas de Reflexivas. Esses tipos reflexivos são grandes planejadores e tendem a se agarrar a seus planos e teorias, ainda que sejam confrontados com contraditória evidência.
Jung classifica a sensação e a intuição juntas, como as formas de apreender informações, diferentemente das formas de tomar decisões. A Sensação se refere a um enfoque na experiência direta, na percepção de detalhes, de fatos concretos. A Sensação reporta-se ao que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar. É a experiência concreta e tem sempre prioridade sobre a discussão ou a análise da experiência. |
Os tipos sensitivos tendem a responder à situação vivencial imediata, e lidam eficientemente com todos os tipos de crises e emergências. Em geral eles estão sempre prontos para o momento atual, adaptam-se facilmente às emergências do cotidiano, trabalham melhor com instrumentos, aparelhos, veículos e utensílios do que qualquer um dos outros tipos.
Arquétipos
Dentro do Inconsciente Coletivo existem, segundo Jung, estruturas psíquicas ou Arquétipos. Tais Arquétipos são formas sem conteúdo próprio que servem para organizar ou canalizar o material psicológico. Eles se parecem um pouco com leitos de rio secos, cuja forma determina as características do rio, porém desde que a água começa a fluir por eles. Particularmente comparo os Arquétipos à porta de uma geladeira nova; existem formas sem conteúdo - em cima formas arredondadas (você pode colocar ovos, se quiser ou tiver ovos), mais abaixo existe a forma sem conteúdo para colocar refrigerantes, manteiga, queijo, etc., mas isso só acontecerá se a vida ou o meio onde você existir lhe oferecer tais produtos. De qualquer maneira as formas existem antecipadamente ao conteúdo. Arquetipicamente existe a forma para colocar Deus, mas isso depende das circunstâncias existenciais, culturais e pessoais.
Jung também chama os Arquétipos de imagens primordiais, porque eles correspondem freqüentemente a temas mitológicos que reaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes. Os mesmos temas podem ser encontrados em sonhos e fantasias de muitos indivíduos. De acordo com Jung, os Arquétipos, como elementos estruturais e formadores do inconsciente, dão origem tanto às fantasias individuais quanto às mitologias de um povo.
A história de Édipo é uma boa ilustração de um Arquétipo. É um motivo tanto mitológico quanto psicológico, uma situação arquetípica que lida com o relacionamento do filho com seus pais. Há, obviamente, muitas outras situações ligadas ao tema, tal como o relacionamento da filha com seus pais, o relacionamento dos pais com os filhos, relacionamentos entre homem e mulher, irmãos, irmãs e assim por diante.
O termo Arquétipo freqüentemente é mal compreendido, julgando-se que expressa imagens ou motivos mitológicos definidos. Mas estas imagens ou motivos mitológicos são apenas representações conscientes do Arquétipo. O Arquétipo é uma tendência a formar tais representações que podem variar em detalhes, de povo a povo, de pessoa a pessoa, sem perder sua configuração original.
Uma extensa variedade de símbolos pode ser associada a um Arquétipo. Por exemplo, o Arquétipo materno compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas as figuras de mãe, figuras nutridoras. Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres (tais como Vênus, Virgem Maria, mãe Natureza) e símbolos de apoio e nutrição, tais como a Igreja e o Paraíso. O Arquétipo materno inclui aspectos positivos e negativos, como a mãe ameaçadora, dominadora ou sufocadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto do Arquétipo estava cristalizado na imagem da velha bruxa.
Jung escreveu que cada uma das principais estruturas da personalidade seriam Arquétipos, incluindo o Ego, a Persona, a Sombra, a Anima (nos homens), o Animus (nas mulheres) e o Self.
Símbolos
De acordo com Jung, o inconsciente se expressa primariamente através de símbolos. Embora nenhum símbolo concreto possa representar de forma plena um Arquétipo (que é uma forma sem conteúdo específico), quanto mais um símbolo se harmonizar com o material inconsciente organizado ao redor de um Arquétipo, mais ele evocará uma resposta intensa e emocionalmente carregada.
Jung se interessa nos símbolos naturais, que são produções espontâneas da psique individual, mais do que em imagens ou esquemas deliberada-mente criados por um artista. Além dos símbolos encontrados em sonhos ou fantasias de um indivíduo, há também símbolos coletivos importantes, que são geralmente imagens religiosas, tais como a cruz, a estrela de seis pontas de David e a roda da vida budista.
Imagens e termos simbólicos, via de regra, representam conceitos que nós não podemos definir com clareza ou compreender plenamente. Para Jung, um signo representa alguma outra coisa; um símbolo é alguma coisa em si mesma, uma coisa dinâmica e viva. O símbolo representa a situação psíquica do indivíduo e ele é essa situação num dado momento.
Aquilo a que nós chamamos de símbolo pode ser um termo, um nome ou até uma imagem familiar na vida diária, embora possua conotações específicas além de seu significado convencional e óbvio. Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto inconsciente mais amplo que não é nunca precisamente definido ou plenamente explicado.
Os Sonhos
Os sonhos são pontes importantes entre processos conscientes e inconscientes. Comparado à nossa vida onírica, o pensamento consciente contém menos emoções intensas e imagens simbólicas. Os símbolos oníricos freqüentemente envolvem tanta energia psíquica, que somos compelidos a prestar atenção neles.
Para Jung, os sonhos desempenham um importante papel complementar ou compensatório. Os sonhos ajudam a equilibrar as influências variadas a que estamos expostos em nossa vida consciente, sendo que tais influências tendem a moldar nosso pensamento de maneiras freqüentemente inadequadas à nossa personalidade e individualidade. A função geral dos sonhos, para Jung, é tentar estabelecer a nossa balança psicológica pela produção de um material onírico que reconstitui equilíbrio psíquico total.
Jung abordou os sonhos como realidades vivas que precisam ser experimentadas e observadas com cuidado para serem compreendidas. Ele tentou descobrir o significado dos símbolos oníricos prestando atenção à forma e ao conteúdo do sonho e, com relação à análise dos sonhos, Jung distanciou-se gradualmente da maneira psicanalítica na livre associação.
Pelo fato do sonho lidar com símbolos, Jung achava que eles teriam mais de um significado, não podendo haver um sistema simples ou mecânico para sua interpretação. Qualquer tentativa de análise de um sonho precisa levar em conta as atitudes, a experiência e a formação do sonhador. É uma aventura comum vivida entre o analista e o analisando. O caráter das interpretações do analista é apenas experimental, até que elas sejam aceitas e sentidas como válidas pelo analisando.
Mais importante do que a compreensão cognitiva dos sonhos é o ato de experienciar o material onírico e levá-lo a sério. Para o analista junguiano devemos tratar nossos sonhos não como eventos isolados, mas como comunicações dos contínuos processos inconscientes. Para a corrente junguiana é necessário que o inconsciente torne conhecida sua própria direção, e nós devemos dar-lhe os mesmos direitos do Ego, se é que cada lado deva adaptar-se ao outro. À medida que o Ego ouve e o inconsciente é encorajado a participar desse diálogo, a posição do inconsciente é transformada daquela de um adversário para a de um amigo, com pontos de vista de algum modo diferentes mas complementares.
O Ego
O Ego é o centro da consciência e um dos maiores Arquétipos da perso-nalidade. Ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes. Ele tende a contrapor-se a qualquer coisa que possa ameaçar esta frágil consistência da consciência e tenta convencer-nos de que sempre devemos planejar e analisar conscientemente nossa experiência. Somos levados a crer que o Ego é o elemento central de toda a psique e chegamos a ignorar sua outra metade, o inconsciente.
De acordo com Jung, a princípio a psique é apenas o inconsciente. O Ego emerge dele e reúne numerosas experiências e memórias, desenvolvendo a divisão entre o inconsciente e o consciente. Não há elementos inconscientes no Ego, só conteúdos conscientes derivados da experiência pessoal.
A Persona
Nossa Persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo. É o caráter que assumimos; através dela nós nos relacionamos com os outros. A Persona inclui nossos papéis sociais, o tipo de roupa que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. O termo Persona é derivado da palavra latina equivalente a máscara, se refere às máscaras usadas pelos atores no drama grego para dar significado aos papéis que estavam representando. As palavras "pessoa" e "personalidade" também estão relacionadas a este termo.
A Persona tem aspectos tanto positivos quanto negativos. Uma Persona dominante pode abafar o indivíduo e aqueles que se identificam com sua Persona tendem a se ver apenas nos termos superficiais de seus papéis sociais e de sua fachada. Jung chamou também a Persona de Arquétipo da conformidade. Entretanto, a Persona não é totalmente negativa. Ela serve para proteger o Ego e a psique das diversas forças e atitudes sociais que nos invadem. A Persona é também um instrumento precioso para a comunicação. Nos dramas gregos, as máscaras dos atores, audaciosamente desenhadas, informavam a toda a platéia, ainda que de forma um pouco estereotipada, sobre o caractere as atitudes do papel que cada ator estava representando. A Persona pode, com freqüência, desempenhar um papel importante em nosso desenvolvimento positivo. À medida que começamos a agir de determinada maneira, a desempenhar um papel, nosso Ego se altera gradualmente nessa direção.
Entre os símbolos comumente usados para a Persona, incluem-se os objetos que usamos para nos cobrir (roupas, véus), símbolos de um papel ocupacional (instrumentos, pasta de documentos) e símbolos de status (carro, casa, diploma). Esses símbolos foram todos encontrados em sonhos como representações da Persona. Por exemplo, em sonhos, uma pessoa com Persona forte pode aparecer vestida de forma exagerada ou constrangida por um excesso de roupas. Uma pessoa com Persona fraca poderia aparecer despida e exposta. Uma expressão possível de uma Persona extremamente inadequada seria o fato de não ter pele.
A Sombra
Para Jung, a Sombra é o centro do Inconsciente Pessoal, o núcleo do material que foi reprimido da consciência. A Sombra inclui aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a Persona e contrárias aos padrões e ideais sociais. Quanto mais forte for nossa Persona, e quanto mais nos identificarmos com ela, mais repudiaremos outras partes de nós mesmos. A Sombra representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. Em sonhos, a Sombra freqüentemente aparece como um animal, um anão, um vagabundo ou qualquer outra figura de categoria mais baixa.
Em seu trabalho sobre repressão e neurose, Freud concentrou-se, de inicio, naquilo que Jung chama de Sombra. Jung descobriu que o material reprimido se organiza e se estrutura ao redor da Sombra, que se torna, em certo sentido, um Self negativo, a Sombra do Ego. A Sombra é, via de regra, vivida em sonhos como uma figura escura, primitiva, hostil ou repelente, porque seus conteúdos foram violentamente retirados da consciência e aparecem como antagônicos à perspectiva consciente. Se o material da Sombra for tra-zido à consciência, ele perde muito de sua natureza de medo, de desconhecido e de escuridão.
A Sombra é mais perigosa quando não é reconhecida pelo seu portador. Neste caso, o indivíduo tende a projetar suas qualidades indesejáveis em outros ou a deixar-se dominar pela Sombra sem o perceber. Quanto mais o material da Sombra tornar-se consciente, menos ele pode dominar. Entretanto, a Sombra é uma parte integral de nossa natureza e nunca pode ser simplesmente eliminada. Uma pessoa sem Sombra não é uma pessoa completa, mas uma caricatura bidimensional que rejeita a mescla do bom e do mal e a ambivalência presentes em todos nós.
Cada porção reprimida da Sombra representa uma parte de nós mesmos. Nós nos limitamos na mesma proporção que mantemos este material inconsciente.
À medida que a Sombra se faz mais consciente, recuperamos partes previamente reprimidas de nós mesmos. Além disso, a Sombra não é apenas uma força negativa na psique. Ela é um depósito de considerável energia instintiva, espontaneidade e vitalidade, e é a fonte principal de nossa criatividade. Assim como todos os Arquétipos, a Sombra se origina no Inconsciente Coletivo e pode permitir acesso individual a grande parte do valioso material inconsciente que é rejeitado pelo Ego e pela Persona.
No momento em que acharmos que a compreendemos, a Sombra aparecerá de outra forma. Lidar com a Sombra é um processo que dura a vida toda, consiste em olhar para dentro e refletir honestamente sobre aquilo que vemos lá.
O Self
Jung chamou o Self de Arquétipo central, Arquétipo da ordem e totalidade da personalidade. Segundo Jung, consciente e inconsciente não estão necessariamente em oposição um ao outro, mas complementam-se mutuamente para formar uma totalidade: o Self. Jung descobriu o Arquétipo do Self apenas depois de estarem concluídas suas investigações sobre as outras estruturas da psique. O Self é com freqüência figurado em sonhos ou imagens de forma impessoal, como um círculo, mandala, cristal ou pedra, ou de forma pessoal como um casal real, uma criança divina, ou na forma de outro símbolo de divindade. Todos estes são símbolos da totalidade, unificação, reconciliação de polaridades, ou equilíbrio dinâmico, os objetivos do processo de Individuação.
O Self é um fator interno de orientação, muito diferente e até mesmo estranho ao Ego e à consciência. Para Jung, o Self não é apenas o centro, mas também toda a circunferência que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente, ele é o centro desta totalidade, tal como o Ego é o centro da consciência. Ele pode, de início, aparecer em sonhos como uma imagem significante, um ponto ou uma sujeira de mosca, pelo fato do Self ser bem pouco familiar e pouco desenvolvido na maioria das pessoas. O desenvolvimento do Self não significa que o Ego seja dissolvido. Este último continua sendo o centro da consciência, mas agora ele é vinculado ao Self como conseqüência de um longo e árduo processo de compreensão e aceitação de nossos processos inconscientes. O Ego já não parece mais o centro da personalidade, mas uma das inúmeras estruturas dentro da psique.
Crescimento Psicológico - Individuação
Segundo Jung, todo indivíduo possui uma tendência para a Individuação ou auto desenvolvimento. Individuação significa tornar-se um ser único, homogêneo. na medida em que por individualidade entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si mesmo. Pode-se traduzir Individuação como tornar-se si mesmo, ou realização do si mesmo.
Individuação é um processo de desenvolvimento da totalidade e, portanto, de movimento em direção a uma maior liberdade. Isto inclui o desenvolvimento do eixo Ego-Self, além da integração de várias partes da psique: Ego, Persona, Sombra, Anima ou Animus e outros Arquétipos inconscientes. Quando tornam-se individuados, esses Arquétipos expressam-se de maneiras mais sutis e complexas.
Quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmos através do auto conhecimento, tanto mais se reduzirá a camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta forma, sai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, suscetível e pessoal do Eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos.
Essa consciência ampliada não é mais aquele novelo egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que sempre deve ser compensado ou corrigido por contra-tendências inconscientes; tornar-se-á uma função de relação com o mundo de objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional, obrigatória e indissolúvel com o mundo.
Do ponto de vista do Ego, crescimento e desenvolvimento consistem na integração de material novo na consciência, o que inclui a aquisição de conhecimento a respeito do mundo e da prória pessoa. O crescimento, para o Ego, é essencialmente a expansão do conhecimento consciente. Entretanto, Individuação é o desenvolvimento do Self e, do seu ponto de vista, o objetivo é a união da consciência com o inconsciente.
Como analista, Jung descobriu que aqueles que vinham a ele na primeira metade da vida estavam relativamente desligados do processo interior de Individuação; seus interesses primários centravam-se em realizações externas, no "emergir" como indivíduos e na consecução dos objetivos do Ego. Analisandos mais velhos, que haviam alcançado tais objetivos, de forma razoável, tendiam a desenvolver propósitos diferentes, interesse maior pela integração do que pelas realizações, busca de harmonia com a totalidade da psique.
O primeiro passo no processo de Individuação é o desnudamento da Persona. Embora esta tenha funções protetoras importantes, ela é também uma máscara que esconde o Self e o inconsciente.
Ao analisarmos a Persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é de fato coletiva; em outras palavras, a Persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo.
De certo modo, tais dados são reais mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão.
O próximo passo é o confronto com a Sombra. Na medida em que nós aceitamos a realidade da Sombra e dela nos distinguimos, podemos ficar livres de sua influência. Além disso, nós nos tornamos capazes de assimilar o valioso material do inconsciente pessoal que é organizado ao redor da Sombra.
O terceiro passo é o confronto com a Anima ou Animus. Este Arquétipo deve ser encarado como uma pessoa real, uma entidade com quem se pode comunicar e de quem se pode aprender. Jung faria perguntas à sua Anima sobre a interpretação de símbolos oníricos, tal como um analisando a consultar um analista. O indivíduo também se conscientiza de que a Anima (ou o Animus) tem uma autonomia considerável e de que há probabilidade dela influenciar ou até dominar aqueles que a ignoram ou os que aceitam cegamente suas imagens e projeções como se fossem deles mesmos.
O estágio final do processo de Individuação é o desenvolvimento do Self. Jung dizia que o si mesmo é nossa meta de vida, pois é a mais completa expressão daquela combinação do destino a que nós damos o nome de indivíduo. O Self torna-se o novo ponto central da psique, trazendo unidade à psique e integrando o material consciente e o inconsciente. O Ego é ainda o centro da consciência, mas não é mais visto como o núcleo de toda a personalidade.
Jung escreve que devemos ser aquilo que somos e precisamos descobrir nossa própria individualidade, aquele centro da personalidade que é eqüidistante do consciente e do inconsciente. Dizia que precisamos visar este ponto ideal em direção ao qual a natureza parece estar nos dirigindo. Só a partir deste ponto podemos satisfazer nossas necessidades.
É necessário ter em mente que, embora seja possível descrever a Individuação em termos de estágios, o processo de Individuação é bem mais complexo do que a simples progressão aqui delineada. Todos os passos mencionados sobrepõem-se, e as pessoas voltam continuamente a problemas e temas antigos (espera-se que de uma perspectiva diferente). A Individuação poderia ser apresentada como uma espiral na qual os indivíduos permanecem se confrontando com as mesmas questões básicas, de forma cada vez mais refinada. Este conceito está muito relacionado com a concepção Zen-budista da iluminação, na qual um individuo nunca termina um Koan, ou problema espiritual, e a procura de si mesmo é vista como idêntica à finalidade.)
Obstáculos ao Crescimento
A Individuação nem sempre é uma tarefa fácil e agradável. O Ego precisa ser forte o suficiente para suportar mudanças tremendas, para ser virado pelo avesso no processo de Individuação.
Poderíamos dizer que todo o mundo está num processo de Individuação, no entanto, as pessoas não o sabem, esta é a única diferença. A Individuação não é de modo algum uma coisa rara ou um luxo de poucos, mas aqueles que sabem que passam pelo processo são considerados afortunados. Desde que suficientemente conscientes, eles tiram algum proveito de tal processo.
A dificuldade deste processo é peculiar porque constitui um empreendimento totalmente individual, levado a cabo face à rejeição ou, na melhor das hipóteses, indiferença dos outros. Jung escreve que a natureza não se preocupa com nada que diga respeito a um nível mais elevado de consciência, muito pelo contrário. Logo, a sociedade não valoriza em demasia essas proezas da psique e seus prêmios são sempre dados a realizações e não à personalidade. Esta última será, na maioria das vezes, recompensada postumamente.
Cada estágio, no processo de Individuação, é acompanhado de dificuldades. Primeiramente, há o perigo da identificação com a Persona. Aqueles que se identificam com a Persona podem tentar tornar-se perfeitos demais, incapazes de aceitar seus erros ou fraquezas, ou quaisquer desvios de sua auto-imagem idealizada. Aqueles que se identificam totalmente com a Persona tenderão a reprimir todas as tendências que não se ajustam, e a projetá-las nos outros, atribuindo a eles a tarefa de representar aspectos de sua identidade negativa reprimida.
A Sombra pode ser também um importante obstáculo para a Individuação. As pessoas que estão inconscientes de suas sombras, facilmente podem exteriorizar impulsos prejudiciais sem nunca reconhecê-los como errados. Quando a pessoa não chegou a tomar conhecimento da presença de tais impulsos nela mesma, os impulsos iniciais para o mal ou para a ação errada são com freqüência justificados de imediato por racionalizações. Ignorar a Sombra pode resultar também numa atitude por demais moralista e na projeção da Sombra em outros. Por exemplo, aqueles que são muito favoráveis à censura da pornografia tendem a ficar fascinados pelo assunto que pretendem proibir; eles podem até convencer-se da necessidade de estudar cuidadosamente toda a pornografia disponível, a fim de serem censores eficientes.
O confronto com a Anima ou o Animus traz, em si, todo o problema do relacionamento com o inconsciente e com a psique coletiva. A Anima pode acarretar súbitas mudanças emocionais ou instabilidade de humor num homem. Nas mulheres, o Animus freqüentemente se manifesta sob a forma de opiniões irracionais, mantidas de forma rígida. (Devemos nos lembrar de que a discussão de Jung sobre Anima e Animus não constitui uma descrição da masculinidade e da feminilidade em geral. O conteúdo da Anima ou do Animus é o complemento de nossa concepção consciente de nós mesmos como masculinos ou femininos, a qual, na maioria das pessoas, é fortemente determinada por valores culturais e papéis sexuais definidos em sociedade.)
Quando o indivíduo é exposto ao material coletivo, há o perigo de ser engolido pelo inconsciente. Segundo Jung, tal ocorrência pode tomar uma de duas formas. Primeiro, há a possibilidade da inflação do Ego, na qual o indivíduo reivindica para si todas as virtudes da psique coletiva. A outra reação é a de impotência do Ego; a pessoa sente que não tem controle sobre a psique coletiva e adquire uma consciência aguda de aspectos inaceitáveis do inconsciente-irracionalidade, impulsos negativos e assim por diante.
Assim como em muitos mitos e contos de fadas, os maiores obstáculos estão mais próximos do final. Quando o indivíduo lida com a Anima e o Animus, uma tremenda energia é libertada. Esta energia pode ser usada para construir o Ego ao invés de desenvolver o Self. Jung referiu-se a este fato como identificação com o Arquétipo do Self, ou desenvolvimento da personalidade-mana (mana é uma palavra malanésica que significa a energia ou o poder que emana das pessoas, objetos ou seres sobrenaturais, energia esta que tem uma qualidade oculta ou mágica). O Ego identifica-se com o Arquétipo do homem sábio ou mulher sábia aquele que sabe tudo. A personalidade-mana é perigosa porque é excessivamente irreal. Indivíduos parados neste estágio tentam ser ao mesmo tempo mais e menos do que na realidade são. Eles tendem a acreditar que se tornaram perfeitos, santos ou até divinos, mas, na verdade, menos, porque perderam o contato com sua humanidade essencial e com o fato de que ninguém é plenamente sábio, infalível e sem defeitos.
Jung viu a identificação temporária com o Arquétipo do Self ou com a personalidade-mana como sendo um estágio quase inevitável no processo e Individuação. A melhor defesa contra o desenvolvimento da inflação do Ego é lembrarmo-nos de nossa humanidade essencial, para permanecermos assentados na realidade daquilo que podemos e precisamos fazer, e não na que deveríamos fazer ou ser.
Assinar:
Comentários (Atom)


